Alô! Alôô! Alôôôôôôôôôôôôô!!! Tem alguém aí?
Ah, oi, você abriu o e-mail. Desculpa ter gritado, mas eu vi você quase me pulando.
E aí, como vão as coisas? Espero que fevereiro seja mais uma expectativa boa do que um trem vindo na sua direção. E, como eu sou mineiro, esse trem pode ser qualquer coisa.
Bom, vamos lá. A ideia pro assunto dessa newsletter veio de um acidente de avião.
Não exatamente. De um vídeo sobre um.
Uns anos atrás, criei uma hiperfixação por acidentes de avião, naquela época que o Youtube impulsionou o canal do Lito Souza pra todo mundo. Eu sei que tem gente que não gosta nem de pensar, mas era algo estranhamente relaxante. Entender como acidentes de avião funcionam mostram o quanto eles são seguros e difíceis de cair.
Mas, enfim, esse não é o ponto.
Esses dias, eu estava zapeando o Youtube e um vídeo dele apareceu de novo. Sem nada melhor para assistir, fui lá ver e uma coisa me chamou atenção muito rápido: os roteiros dele agora são todos escritos por IA generativa.
O mais curioso é que eu percebi isso antes de saber por que estava percebendo. O processo no meu cérebro teve que ser de engenharia reversa. O que me diz que ele é de IA? Foi só assistindo com esse foco que comecei a perceber:
a estruturação da história, que segue sempre uma formulinha bem rígida;
o excesso de adjetivos em pontos que, naturalmente, não os escrevemos nem falamos;
a dramatização piegas de momentos em que o discurso direto funciona bem melhor — e até causa mais impacto.
Eu até entendo a pressão dos algoritmos por produção de conteúdo quando esse é seu meio de vida. Culpo muito mais o Youtube do que o criador nesses casos. Mas é triste porque os roteiros do Lito eram realmente bons. Conseguiam ser engajantes e didáticos ao mesmo tempo. Agora, é só um monte de palavras.
Se você quiser brincar de “É IA ou não é“, vai no canal dele e dá uma olhada em vídeos mais recentes.
Mas a newsletter de hoje não é sobre ele exatamente.

O Épico de Gilgamesh, escrito há 4 mil anos
O Épico de Gilgamesh é o registro mais antigo que se conhece de uma história de ficção sendo contada — não que eles achassem que fosse ficção e, vai saber, talvez não seja. Ele é uma prova de que o ato de contar histórias é tão antigo quanto se pode medir. Extrapolando, dá até para afirmar que é tão antigo quanto o ser humano.
Existem estudos de diversas áreas sobre o mecanismo de passar conhecimento e experiências por meio de metáforas e sua importância para a evolução da espécie. Mas o que eu queria agora é dar uma visão pessoal sobre isso.
Desde criança, eu sempre fui muito de imaginar histórias. Talvez eu devesse até virar escritor! Algo que vem naturalmente, como a maioria das crianças e adultos — embora adultos admitam menos que fantasiam.
Porém, vendo o vídeo com roteiro de IA, eu pensei em como esse processo não é apenas um escapismo, é uma forma de aprendizado. Não sei se é só coisa minha, mas eu uso histórias até mesmo para fixar conceitos e ideias. Um exemplo: quando empolgo com um assunto, frequentemente me imagino falando sobre ele para outras pessoas ou criando um cenário em que é aplicado.
É um processo natural, já que estou animado com aquilo. Pensar sobre algo é fantasiar sobre algo.
Isso me leva a acreditar que todo mundo — ou quase todo mundo, sei lá — raciocina por narrativas. As histórias são formas de nos inserir em um contexto e aprender com ele de maneira eficiente e prazerosa. O mais chato dos conceitos pode virar uma boa trama se você se entedia o suficiente.
É aí que entramos na IA generativa. Acho que essa repulsa imediata que sentimos é o cérebro resistindo contra algo que não segue o mesmo processo. Quando você ouve ou lê uma história escrita por um humano, consegue ter um vislumbre de dentro da mente dessa pessoa. Consegue entender um raciocínio por meio da forma única dada a ele. A conexão empática é imediata, você gostando ou não do que está escrito.
A IA generativa pode entregar uma história perfeita. Personagens bem desenvolvidos, tramas complexas e bem intricadas, reviravoltas imprevisíveis. Ainda assim, vai sempre faltar algo.
Isso porque a IA generativa é treinada para prever a melhor próxima palavra possível para o que foi pedido. Ela não está criando uma história intrinsicamente, está gerando uma sequência de sentenças e parágrafos. Pense que é como montar um Lego, mas, em vez de imaginar o resultado que você quer e tentar chegar lá, ela vai de peça em peça pensando sempre qual é o melhor próximo encaixe.
Parece a mesma coisa? Parece. E muita gente pode se sentir satisfeita com isso. E vai saber se, no futuro, a tecnologia será diferente.
A questão é que uma história que não processa uma ideia individual com imaginação não utiliza um dos mecanismos mais importantes para a evolução da humanidade. Talvez esteja aí o incômodo que senti com os roteiros do Lito: perfeitamente funcional; imaginativamente vazio.
[Jogos]
Aproveitando o assunto de IA, é uma oportunidade perfeita de falar do meu vício do momento: Magic The Gathering. Isso mesmo, o card game que nunca morre, aparentemente.
A última vez que eu tinha jogado Magic deve ter sido ali por 2004, 2005. Vinte anos! Em dezembro, naquele limbo entre o natal e o ano novo, lembrei da minha adolescência e resolvi testar a versão digital no celular.
Pois é, nunca misture nostalgia e gacha.
Estou a um mês jogando umas partidas sempre que tenho a oportunidade. E uma das coisas que mais me lembrei da época é o tanto que eu gostava das artes de Magic. A parte mais legal da tradição do jogo é a mistura de estilos e a falta de medo em experimentar. A Wizards of The Coast, quando era apenas ela mesma, dava muito espaço para que os ilustradores se expressarem.
É por isso que há tanta variedade na história do jogo. Desde cartas feias, como esta clássica:

Onde acaba um torso e começa um braço? Talvez nunca saberemos
Como também cartas maravilhosas. Uma artista clássica do Magic que gosto muito é a Rebecca Guay, que contribuiu com com aquarelas como esta:

Usei muito essa no meu deck branco de 800 anos atrás
Existem muitas artes recentes que também são incríveis. Eu gosto bastante da expansão Limiar das Eternidades, com uma forte influência da arte de ficção científica:

Gosto muito dessa pegada que remete às capas de livro pulp sci-fi lá de trás
Mantendo o assunto desta edição, o meu medo é que essas artes também se tornem produto de IA generativa. As traduções já são, infelizmente. Embora a WotC afirme que não tem planos para ilustrações geradas, nós sabemos como funciona a indústria.
Tanto que já vemos a influência de uma empresa grande comprada por outra empresa grande, comprada por outra empresa grande, sucessivamente: as artes mais recentes de Magic são muito mais seguras que antigamente. Mais “limpas”, se é que dá pra usar o termo. Marcas se tornam tão imensas que não podem mais testar o que ainda não foi testado.
E não é só Magic. A experimentação perdeu muito espaço na mídia em geral — filmes, música, jogos, o que for. Talvez nunca mais veremos a liberdade de se expressar em suas artes que os ilustradores tinham nas primeiras décadas do jogo.
[Finalmentes]
Por enquanto, é isso! Muito obrigado por acompanhar a newsletter e, se quiser, siga e me acompanhe nas redes, além de dar uma chance pros meus livros!
Até a próxima!
Guilherme L. A. Pimenta
