Alô, você!
Desculpa se cheguei muito filosófico em 2026. Mas esta é a pergunta que eu tenho para você hoje: Quando foi a época em que você esteve mais feliz?
Antes de eu só sair escrevendo, preciso avisar que todas as ideias a seguir vieram do filme Eternidade, de 2025. Eu vou tentar não dar spoiler nenhum, mas, se você não quiser saber nada sobre ele, pule para a próxima seção! Prometo que vou tentar ao máximo circundar o assunto do filme sem entrar na trama dele propriamente dita.
Bom, vamos lá.

Quem nunca morreu idoso e viu sua parceira da vida inteira reencontrar no pós vida o primeiro marido?
Eternidade conta a história de um casal idoso que morre em datas muito próximas um do outro. O que o parceiro não contava era que, no mundo depois do nosso, o primeiro marido da protagonista, falecido ainda jovem, estava lá esperando por ela, décadas depois, apenas para reencontrá-la. Essa frase ficou com vírgulas demais, mas vou deixar assim.
A premissa curiosa dá início a um filme divertido em que, toda hora, a gente vai trocando o lado para quem torce. Só que, como prometi, não vou detalhar mais nada a partir daqui.
Eu queria só divagar um pouco sobre o que fiquei divagando durante o filme. Um dos elementos presentes no roteiro é que, quando a pessoa morre, ela chega no pós vida com a aparência que ela tinha na época que foi mais feliz na Terra. Claro, é uma forma de contar a história encaixando atores mais jovens, como Hollywood sempre faz. O casal de idosos, no além, é interpretado por Elizabeth Olsen e Miles Teller.
No entanto, é uma ideia que foi muito bem incorporada no roteiro, inclusive sendo parte central de um momento importante da trama — calma, não vou contar. O fato de todo mundo viver a eternidade como a sua versão mais feliz é discutido com uma sutileza tocante, responsável por eu estar pensando tanto nisso e escrevendo agora.
Primeiro, fiquei me perguntando: em que momento, até agora, eu fui mais feliz na vida?
Não é uma pergunta fácil de responder, né? Me colocando no lugar de todos os figurantes que desencarnavam e surgiam na estação do pós vida, fico imaginando quantas pessoas se surpreenderiam com a forma como chegam.
O que acontece é que somos muito mais felizes em retrospecto, não é verdade? Não, “somos mais felizes” não parece a forma certa de dizer. Refraseando um pouco, a nossa percepção de felicidade só acontece em retrospecto.
Como sempre, talvez eu esteja querendo jogar em você filosofia ou psicologia, até antropologia. Tudo isso sem diploma, então tenha isso em mente.
Mas pensa só: o que define a nossa própria felicidade? Se você olhar a maioria das citações famosas sobre o assunto, verá um tema bem comum: a felicidade vem de dentro e somos nós que a fazemos.
É daí que vem a ideia da busca pela felicidade. Como se ela fosse um objeto a ser conquistado. Uma ideia que eu não gosto, sendo sincero. Eu poderia tentar explicar minha aversão à ela, mas é mais fácil deixar a citação de uma pensadora citando outro pensador. Dupla carteirada. Em um de seus textos, Susan Sontag disse:
Aristóteles tem razão: a felicidade não deve ser almejada; ela é um subproduto da atividade almejada.
Ou seja, buscar a felicidade é uma ação vazia, já que ela surge espontaneamente quando estamos em conexão importante para nós como pessoas: um interesse, uma recompensa, um desafio, o que quer traga um estado elevado de contento.
Bom, de qualquer forma, a definição de felicidade não importa tanto para o que estou tentando elaborar aqui. Na verdade, é exatamente esse o ponto! Não há, até onde eu sei, uma fórmula de como a felicidade é alcançada, experienciada e lembrada que seja universal para todos os seres humanos.
A forma que se dá a ela é exatamente o retrospecto. Definimos nossa felicidade olhando para o passado, não o presente. E também por comparação com outras memórias em uma análise quantitativa e qualitativa.
Se é impossível defini-la sem autoconsciência, ela só existe em relação a todas as experiências que já tivemos em vida. É uma determinação, uma arbitrariedade. O dia em que fomos mais felizes na vida é um constructo.
Eu sei, isso saiu meio deprimente. Mas a ideia que eu queria passar, que fiquei pensando durante o filme, é mais positiva. Juro!
Tentar se libertar da ideia do pico da felicidade, o momento em que você foi ou será mais feliz, é uma armadilha para diminuir outros momentos. Especialmente aqueles mais ordinários, em que estamos apenas curtindo um instante de conversa, um olhar, dez minutos escorado na janela enquanto a chuva cai em um dia quente.
Se a felicidade vem da autopercepção, precisamos apenas descer um pouco a barra para aproveitar mais o que realmente importa para a vida de cada pessoa.
Afinal, cada uma experiencia o mundo ao seu jeito. E filtra esse mundo com um hardware único. Precisamos ver o mundo mais como grão de bico e menos como Coca-Cola. Evitar os picos glicêmicos de alegria. Aproveitar as fibras e digerir o que nos faz bem com calma. Como diria a famosa frase de Margaret Lee Runbeck: “Felicidade não é um estado que se alcança, mas uma maneira de viajar”.
Se a felicidade é um ideal, ela nunca alcançará nossas expectativas. Se existisse um momento na vida em que somos mais felizes, qual seria o sentido de todos os outros?
[Cinema]
Sim, vou continuar falando de filmes!
É que a temporada do Oscar chegou e é hora de começar a assistir o máximo de indicados possível até a premiação. Menos Avatar, esse eu pulo.
O primeiro que vi, logo no dia do anúncio dos indicados, foi Blue Moon, filme que se passa todo na noite de estreia do histórico musical Oklahoma!. A trama acompanha o compositor Lorenz Hartz, que viu seu parceiro conseguir imenso sucesso logo depois de parar de trabalhar com ele. Aquele tipo de coisa que te deixa rancoroso e com inveja para sempre.
Você não? Eu ficaria.
Enfim, eu sabia que o filme era estrelado pelo Ethan Hawke, mas qual foi a minha surpresa ao descobrir que ele foi escrito e dirigido por um parceiro de longa data: Richard Linklater, que fez com ele a Trilogia do Antes e Boyhood.
A Trilogia do Antes é uma série de filmes que me inspirou muito a escrever quando estava querendo começar esta maldição de não parar de bater com os dedos no teclado. Os três filmes seguem, por instantes de horas separados por anos, a relação entre um homem e uma mulher que se conhecem em um trem.
Se você não conhece esses filmes e gosta de escrever — principalmente diálogos —, vale muito a pena dar uma olhada. Todos eles são uma sequência quase teatral de duas pessoas conversando. Sem grandes eventos ou conflitos, apenas a troca de ideias.
Boyhood foi um filme com outra proposta, por isso finalmente consegui sentir de novo esse gostinho em Blue Moon. Claro, é uma história com carga dramática maior e mais personagens, mas ainda tem o mesmo foco em “don’t show, eu quero é tell“.
São filmes em que conhecemos os personagens pelo como eles se mostram para os outros. Sem o olhar soberano do espectador. Cabe a cada um confiar ou desconfiar, gostar ou desgostar, de acordo com suas próprias experiências pessoais e afinidade com personalidades distintas.
Em Blue Moon, a pegada é essa. Você vai ouvir monólogos intermináveis e conversas que se desencontram. Personagens vão ser interrompidos e perderem o fio da meada. Pessoas entram e saem de cena em momentos pouco convenientes ou que não fazem tanto sentido. Assim como são os encontros sociais em um fim de semana qualquer.
Só um aviso: se for ver, tente ignorar os truques para tentar fazer o Ethan Hawke parecer baixinho. É difícil, mas tente.
Ah, e sim, Blue Moon é a música de abertura da novela Beijo do Vampiro.
[Finalmentes]
Acho que eu exagerei na divagação dessa vez, né? Saí escrevendo e demorei pra voltar. De vez em quando é assim, de vez em quando não sai nada.
Se, por acaso, você gostou, pense em recomendar a newsletter para quem você gosta (ou odeia), me acompanhe nas redes, além de dar uma chance pros meus livros!
Até a próxima!
Guilherme L. A. Pimenta
