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Olá, olha quem apareceu na sua caixa de entrada!

Pois é, já faz um tempo. Quatro meses pra ser mais exato. Eu mesmo achei que ia durar mais escrevendo uma newsletter, mas as estatísticas estão aí pra provar que, no final, elas sempre vivem entre hiatos.

Só que uma coisa que deixei bem claro quando comecei é que não me forçaria a fazer só por fazer. Tem dia — ou semana, ou ano — em que não temos nada pra falar sobre. Ou até tem, mas falta muito mais vontade do que sobra assunto.

Por isso, desculpa, mas eu não vou me desculpar. ← viu só isso aqui é uso poético da linguagem sou muito escritor

Enfim, calhou que hoje eu tenho um assunto para escrever e vontade apenas o suficiente para começar. Como sempre, não sei onde vou terminar, porque pensei só agora na questão e não deve ser dessas que se conclui algo no final. Mas vem comigo que descobriremos juntos o destino desta jornada!

[Cinema]

Esses dias, eu estava vendo um filme de terror muito ruim. O nome dele é Afeto e eu te desaconselho fortemente a assistir! Tanto que vou ignorar a trama e pular direto para o que eu realmente quero falar.

Uma elemento muito curioso do filme me chamou a atenção de um jeito que fiquei mais pensando nisso do que na história mesmo. Tá, talvez seja só porque o resto não valesse tanto assim prestar atenção, mas enfim. Quando coisas acontecem na história — e, veja bem, coisas acontecem na história — a protagonista finalmente descobre e adentra o covil do vilão. No caso, um celeiro desses de filme estadunidense, mas cheio de coisas de alta tecnologia dentro.

Este é o momento em que o filme resolve expor tudo o que aconteceu até ali da forma mais didática que filmes sabem fazer: com diários em vídeo e/ou áudio do vilão explicando tudo bem explicadinho.

Vai por mim, ele explicar não faz fazer mais sentido.

De qualquer forma, o que estranhei nesse momento foi a dissonância do cenário e do tema do filme com o formato de exposição. A protagonista, tentando juntar as peças do que está acontecendo ali, passa por uma tela de computador super moderna, falando sobre edição de DNA, reconhecimento digital de consciência e todos os technobabbles possíveis — que eu carinhosamente traduzo como tecnolorotas. É daquelas aplicações de ciência e tecnologia nos filmes que seriam impossíveis sem a licença poética da ficção.

Cena do trailer que exemplifica o setup gamer do nosso antagonista

Depois de analisar todos esses conceitos super avançados de ciência moderna, com IA no meio e tudo, a protagonista continua fuçando na mesa do “escritório“ e encontra uma… fita de VHS.

Uma daquelas pequenas de câmera portátil do fim dos anos 1990, começo dos 2000. Por algum motivo, há um post-it nela escrito à mão “Me assista“. É, bem conveniente. Sem pestanejar, a protagonista pega a fita, coloca em um videocassete e dá play na gravação que toca em uma televisão de tubo CRT.

Este é outro ângulo do mesmo escritório

É uma decisão que não faz nenhum sentido lógico do ponto de vista narrativo. Por que o cientista brilhante, em seu celeiro cheio de câmeras, scanners ultra-avançados e telas de LED, tem uma câmera VHS e uma TV velha para se filmar? Isso ainda piora com o fato de que ele também guarda vários registros em áudio. Esses, feitos no computador, como qualquer pessoa de hoje em dia faria. Por que, então, os vídeos precisam ser gravados na fita?

Talvez isso não tivesse me incomodado tanto no vácuo. Porém, eu já tinha pensado no assunto recentemente, apenas em filmes absurdamente-de-muito-mais-melhores-de-bons. Dois deles em destaque são Obsessão e Backrooms.

Ambos os filmes têm algo em comum: uma direção de arte bem intencional, de personalidade e que se integra na ideia do filme — inclusive reforçando suas mensagens. No entanto, em questão de signos visuais, os dois seguem uma receita parecida, assim como outros contemporâneos. São filmes que se passam claramente nos dias atuais, com elementos como celulares e computadores, mas que se apoiam muito no visual retrô que remente aos anos 90.

Em Obsessão, os personagens trabalham em uma loja de música e instrumentos que tem todos os elementos visuais de lojas de vinil e CD do fim do século passado. A casa do protagonista é escura e meio entulhada. O roteiro justifica na trama o fato de ser uma casa herdada e que ele não liga muito para dar uma arrumada. Isso imprime na tela símbolos como cadeiras de madeira, papéis de parede, eletrônicos mais “analógicos“, tudo que se encontra em filmes de 30 anos atrás.

Ninguém chutaria que esta cena se passa em 2026 se não tivesse pessoas usando celulares de última geração no filme

A mesma coisa acontece em Backrooms. Além do literal uso de VHS para algumas cenas, a própria loja de móveis parece muito o que víamos dos grandes varejos nos filmes estadunidenses da época. No roteiro também há uma forma de encaixar esse anacronismo: é um negócio decadente, que já passou de seus anos de glória e agora é visto como ultrapassado.

Nada disso que estou citando é necessariamente bom ou ruim, por isso achei tão interessante pensar sobre. Aqui mesmo, dei um exemplo que não funcionou e dois que funcionaram muito. E eu, como criança/adolescente dos anos 1990, amo ver essas referências.

O que me pegou nesses exemplo é tentar entender o que motiva a estética. Não são filmes de época, mas também não são apenas referências visuais. São elementos ligados à trama para criar uma atmosfera específica na história. Uma estranha realidade em que os dois períodos de tempo se fundem.

Sabe o retrofuturismo, que é a estética de futuro imaginado pelo passado? Eu vejo o movimento atual como um retroagoraismo: a estética de presente imaginado pelo passado. Ou até de passado imaginado pelo presente. Não sei, me perdi nessa alegoria.

Uma hipótese que consigo levantar está ligada ao tipo de filme em que tenho visto isso: suspense ou terror. Acabam por invocar uma época em que o isolamento era mais ameaçador. Estar sozinho em casa significava estar sozinho em casa, não ter acesso a qualquer pessoa do mundo com uma mensagem. Conecta-se também à tentativa de filmes de terror moderno excluírem o elemento “telefone celular” de suas histórias. Repare como eles costumam quebrar, sumir ou ficar sem serviço.

Mas eu acho que tem mais a se discutir na tendência. Nem todo filme usando esses elementos quer te assustar. Há também um estado de mundo que exaure as pessoas a ponto de desejarem que tudo fosse menos exposto e menos saturado de informações. No momento em que todo trabalho envolve comunicação constante, auto-exposição, pressão por produtividade e opinião sobre tudo, não dá pra culpar quem passa a sonhar com um trabalho vendendo teclados Yamaha e encontrando os amigos depois do expediente.

Ninguém mais aguenta fazer e parecer o tempo todo. Queremos apenas ser, pra variar.

Por mais que os filmes que citei não sejam sobre isso, não é a arte um espelho da própria sociedade que a expressa? A vontade de se desligar de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo pode ser o que leve a estética do cinema à época em que já tínhamos um pouco do mundo moderno, mas sem que ele ainda tivesse consumido nossas vidas. A época em que a internet era um lugar em que se entrava de vez em quando, não onde passamos a viver em plenitude.

Mesmo quem não viveu um mundo anterior às redes sociais vê na época um ideal a ser recuperado. Não é apenas nostalgia, porque até mesmo quem é mais jovem almeja a projeção desse passado. O amalgama da busca do presente com a estética do passado vira, então, uma terceira coisa. Parecida, mas nem tanto. Com algo que incomoda e conforta na mesma medida. Como os próprios Backrooms fazem com o que entra neles.

[Música]

Eu não sei quando vai ter outra dessas, então vou colocar uma musiquinha pra aproveitar ao máximo a newsletter.

Como falei sobre anos 1990, aqui vai uma das músicas mais nostálgicas pra mim da época. Não é engraçado como a nostalgia nem sempre vem de onde você acha que vai vir?

Por exemplo, uma confissão: eu odiei Tarzan quando vi na época. Eu não sei por quê. Em 1999, não tinha as ferramentas para analisar o que sentia. Hoje em dia, eu já esqueci.

Seja como for, mesmo odiando o filme, sempre que ouço You’ll Be In My Heart do Phill Collins, sinto vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo. É um negócio muito esquisito. Fica aí então com esta pedrada do Felipe Colinhos:

[Finalmentes]

Quem sabe quando eu vou voltar? Nem eu sei! Então, se quiser me ver mais por aí, siga e me acompanhe nas redes, além de dar uma chance pros meus livros!

Até a próxima!

Guilherme L. A. Pimenta