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*vai falhar muito ainda, mas não vá embora por favor!

Quando eu comecei este projeto, uma das coisas que tinha em mente era falar sobre coisas que eu gosto que estejam fora do que geralmente eu falo: literatura e abobrinha. Coisas sobre as quais gostaria de falar mais do que só um ou outro post em rede social.

Um desses assuntos é música. Canções e artistas que eu gosto, álbuns que me conquistam e como é feita a composição musical.

Sim, eu sei. Composição também é literatura. Me deixa.

Nas edições passadas, já dei umas recomendações: as músicas da TOMOO, excelentes pra ouvir sábado de manhã, o álbum novo da Lilly Allen que é maravilhoso, além de outros que devo ter esquecido já.

Mas semana passada foi carnaval e achei que era hora de citar música brasileira. No caso, Nando Reis, que é um dos meus compositores favoritos. E sim, talvez eu defenda o Skank aqui. Vamos ver como eu me saio quando sair escrevendo.

[Música]

Como todo belorizontino que cresceu no auge do Skank, seria uma obrigação moral do emo aqui de repudiar o rock popzinho da banda. Sepultura, sim, é o grupo que representa a cidade — e que eu não ouvia porque achava pesado demais. Pois é.

Eu era o tipinho de adolescente perfeito para torcer o nariz pro Skank. Fazia muito isso com o Jota Quest, por exemplo, que também é de BH. Mas com eles, especificamente, foi diferente.

Essa diferença não veio do som, das letras, dos integrantes. Veio de um primo que, infelizmente, foi embora cedo demais. Sim, sempre vai ser cedo demais porque sempre queremos mais tempo com as pessoas que amamos. Mas existem cedos mais cedo que outros cedos.

Meu primo era um dos maiores fãs da banda, desde o comecinho deles. Era um bocado mais velho do que eu, mas a gente se dava muito bem. Era uma pessoa incrível de verdade.

Por causa dele, nunca consegui dar ao Skank o tratamento que dava a outras bandas do estilo. E até hoje, quando ouço músicas daquela época, sinto uma nostalgia bem específica.

Com o tempo, cresci e passei a fazer mais do que ouvir as músicas que gostava. Com o gosto por literatura aflorando, passei a reparar muito nas letras e como são feitas. Foi quando minha relação com a banda ficou mais engraçada.

A questão é que eu… não gosto muito das letras do Skank. Na verdade, não é que eu não gosto delas. Canto todas junto enquanto não percebo. Mas o jeito que o Samuel Rosa compõe não é muito meu estilo. Talvez eu não tenha interpretado da forma que a poesia exige, mas leio suas composições muito como forma sobre função.

Tá, não é o melhor termo, falar em função para literatura. Talvez forma sobre significado? A questão é que me parece que ele escolhe as palavras muito mais pelo que elas soam do que o que elas dizem. Como disse, não tem nada de errado nisso. É uma escolha artística que funciona muito bem ao que se propõe.

Dito tudo isso, existem exceções que gosto muito, como Sutilmente, Tão Seu. Em Eu Disse A Ela, foi a primeira vez que ouvi em uma música uma referência ao lugar em que nasci. Depois de tantas canções sobre Rio, São Paulo, Salvador, foi um sentimento esquisito e divertido ouvir o verso Ondas amarelas na Contorno cheia e imaginar como não faria sentido para pessoas que ouvissem de outras cidades.

Mas, enfim, depois dessas voltas todas, eu queria falar sobre uma letra em específico, a minha preferida do Skank e que… não foi escrita por eles. A melodia é do próprio Samuel Rosa, mas a letra é de Nando Reis.

Na primeira vez que ouvi Resposta, primeiro single do álbum Siderado, fui pego desprevenido. Era uma mudança drástica do reggae pop que faziam até ali. Uma música que deixava de lado os metais tão presentes nos primeiros álbuns e as letras descontraídas para um história de amor perdido e arrependido, cru e sincero como são os términos não traumáticos. Daqueles que não criam rupturas, mas que nem por isso deixam de doer.

Resposta, segundo o próprio Nando Reis, nasceu de suas ruminações sobre o termino do namoro com a também cantora e compositora Marisa Monte. Não é um relato direto e com detalhes como seria uma canção da Taylor Swift. Ele diz, inclusive, que, embora tenha partido de uma experiência própria como tema da composição, ela se transformou em outra coisa e, até hoje, continua se transformando.

Gosto muito dessa fala dele porque é o mesmo que sinto quando escrevo. Ficção ou não-ficção, todo texto é uma extrapolação de nós mesmos. Podem ser bem específicos ou muito abrangentes, mas sempre serão algo que começa em nós e nunca termina.

Nando conta que, ao mostrar a música para sua amiga Cássia Eller, recebeu de volta uma crítica que não esperava: ela não gostou da letra porque achou apenas uma série de clichês em versos. Nando interpretou como um sinal de que era uma composição redonda, clássica.

Além disso, dá para completar também dizendo que não existe música de amor que não seja um clichê, já que a bagunça que nos tornamos quando nos apaixonamos é a mesma desde que a humanidade existe. Tem um porquê de Romeu E Julieta funcionar até hoje: o que eles sentiram, nós ainda sentimos.

Outro ponto interessante que ele levanta ao falar sobre a letra é que sua história não termina, não há um fechamento.

E não são assim todos os relacionamentos? O que pode ser visto como um problema narrativo, eu vejo como a alma dessa canção. Términos abruptos ou arrastados; mútuos ou arbitrários; doloridos ou descompromissados. Nenhum deles termina de verdade porque sempre levamos um pedaço do outro conosco.

Talvez esteja aqui minha única discordância com a letra: quando ela diz que “Ficou pra trás também o que nos juntou“. Eu não acho que isso seja possível. Dentro da composição, vejo apenas como um eu lírico em negação, tentando recuperar não o que eram, mas sua ideia do que eram. O que me faz pensar que, dificilmente, a tal resposta seria a que ele espera. Ou que haja qualquer resposta capaz de dar-lhe fechamento, continuidade.

Quando ouço Skank, ainda lembro do meu primo. Sempre. E sou lembrado, de novo e de novo, que nada tem o fim que desejamos. Até porque nosso desejo sempre seria que as coisas boas nunca terminassem.

De uma certa forma, não terminam. Mas não podem ficar imutáveis conosco para sempre.

[Finalmentes]

Desculpa se a newsletter de hoje acabou um pouco pra baixo. Não era minha intenção no início, mas a graça aqui é exatamente sair escrevendo e ver no que dá. Tá no título. Pode assinar que eu prometo que não vai ser sempre assim!

Até a próxima!

Guilherme L. A. Pimenta

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