Olá! Ainda não pensei num cumprimento engraçadinho, então fico no olá.
Vem cá, me responde uma coisa: qual é o seu objeto preferido? Preciso que você pense bem sobre o assunto e não caia na armadilha do viés recente. Todo mundo fica empolgado quando compra um celular ou computador novo, ou coisas assim. Essa é a parte da empolgação que suaviza com o tempo, quando perde a novidade.
Eu quero que você cave mais fundo. Que objeto te lembra um momento, um sentimento ou uma pessoa? Aquele que você pode ficar mais de ano sem ver que, mesmo assim, se emociona ao abrir a gaveta e se dar conta dele?
A nossa relação com objetos pode ser o tipo mais intenso de projeção que fazemos. Conseguimos colocar um pouquinho de nós até nas menores coisas e revisitar essa partícula de mundo quando quisermos. Até ter empatia por algo inanimado, não é esquisito?
Eu nunca tinha parado para pensar muito nisso, mas faz todo o sentido: nós somos o que somos apenas em comparação ao que não somos. Ou seja, para nos definirmos, precisamos de coisas externas para nos expressarmos. O estilo da roupa, as coleções, o que se mostra aos amigos e o que se guarda no fundo da gaveta, tudo isso cria uma ideia de nós mesmos. Uma persona. Então, parece bastante natural que os trecos e troços se tornem importantes, como uma extensão de nós. E que, ao ter controle sobre eles, tentemos também controlar nossas próprias vidas.
Mas por que eu pensei nisso tudo por agora? A ideia me veio de um livro. Um em que o mundo inteiro de uma pessoa cabe dentro de casa.
[Literatura]
Quando nosso pequeno grupo do livro escolheu que a primeira leitura do ano seria Sempre Vivemos No Castelo, conhecia Shirley Jackson apenas de nome. E decidi que ia pesquisar mais sobre ela apenas depois de ler. Quando fiquei sabendo sobre sua fama de pioneira no terror psicológico e inspiração de autores como Stephen King, toda a estranheza que senti no desenrolar da trama fez sentido.

Sempre vivemos no castelo, de Shirley Jackson
A história conta a vida de duas irmãs que, por um motivo não evidenciado de cara, moram sozinhas com um tio debilitado em uma grande mansão britânica. São jovens reclusas e autossuficientes, o que acaba sendo natural quando todo mundo na vila que você mora te odeia ou te despreza.
Essa premissa inicial deixa o leitor — pelo menos este leitor aqui — incomodado pela estrutura peculiar. Enquanto a cidade é odiosa em relação à família, Merricat, a jovem protagonista, não se demonstra uma pessoa triste pela perseguição ou injustiçada. O que ela tem é exatamente o que quer. Devolve o sentimento na mesma moeda, desejando a morte dos vizinhos sem nenhuma culpa. Para ela, não precisam de ninguém em suas vidas. Seu mundo é perfeito, desde que esteja isolado e imutável.
Essa história poderia ser escrita de diversas maneiras. Talvez fossem até melhores, bem resolvidas. Provavelmente mais redondas, mas sem a mesma personalidade. Ah, não, Sempre Vivemos No Castelo tem uma personalidade tão única exatamente pelo jeito como é contada — seja para o bem ou para o mal. O gancho que Jackson usa para criar uma atmosfera claustrofóbica, que incomoda ao ler, é evitar as pessoas e ver o mundo de Merricat como ela o vê: um intrincado conjunto de objetos que dão forma à sua vida.
Pelo ponto de vista da protagonista, conhecemos os personagens indiretamente pelas coisas que os cercam: as anotações do tio Julian, as ferramentas de cozinha e jardinagem da irmã Constance, as decorações perfeitamente posicionadas na sala de visitas que era o orgulho da mãe, os pertences do pai em seu quarto imaculado.
Nas cenas em que personagens interagem, a atenção de Merricat está sempre nos objetos que os observam inanimadamente. Se fosse um filme, seria como o diretor escolher propositalmente afastar a câmera dos rostos e focar nas estantes, nas cadeiras, nas paredes. As vozes ainda audíveis, mas com um deslocamento da atenção, colocando mais humanidade nas coisas do que nas pessoas.
E essa escolha narrativa serve perfeitamente para nos mostrar o mundo de Merricat. Sua obsessão pelo “lugar certo das coisas” demonstra uma tentativa de controle sobre o incontrolável: a passagem do tempo.
No caso dela, não é apenas um anseio indireto. Ela ativamente enterra e prega objetos pela propriedade, criando uma relação entre a imutabilidade de um item fixo e uma vida fixa. Ao ver uma mudança drástica, ao mesmo tempo em que um livro cai da árvore em que ela o havia pregado, sua convicção só aumenta.
Sem entrar em grandes spoilers, a perturbação desses objetos se torna o ponto de quebra para a personagem que, ao ver seu mundo ameaçado, acaba por transformar todas as coisas que têm em uma casca protetora. Camadas e camadas ao redor de seu núcleo familiar.
Essa reação ressoa muito em pessoas que, como eu, são introvertidas e têm uma ansiedade basal que busca sempre controlar tudo. É externalizar um anseio com o qual não conseguimos lidar.
É o mesmo mecanismo que cria as superstições. A vontade de desenvolver padrões capazes de prever e prevenir mudanças contra a vontade. Algo impossível. Mas quem disse que o cérebro, essa máquina de raciocinar, sabe raciocinar direito?
Sempre Vivemos No Castelo pode não ter o mesmo efeito em todo mundo. Mas quem conhece o desespero por controle — algo que, ironicamente, não dá para controlar — o mundo de Merricat se parece muito com o nosso.
Mesmo que não seja o caso, eu pergunto de novo: qual é o seu objeto favorito? Pensar sobre a resposta pode até levar você a se conhecer melhor.
[Finalmentes]
Vou ficando por aqui hoje, sem muitos outros assuntos que me venham à cabeça agora. Mas continue acompanhando para mais divagações aleatórias no futuro!
Até a próxima!
Guilherme L. A. Pimenta
