Ei ei ei!
Olha só você, chegamos à edição #10 da E Se Eu Só Saísse Escrevendo?, sua newsletter sobre nada que, de vez em quando, tem umas coisas.
Se você chegou na primeira ou agora, agradeço muito! Falar sobre assuntos aleatórios é meio terapêutico pra mim, mas funciona melhor quando sei que minhas ideias de gente perturbada ressoa com outras pessoas — talvez perturbadas também.
Eu quase pulei esta semana porque não tinha o que falar, mas tive uma ideia. O que disse lá na primeira edição é que também usaria o espaço pra jogar no mundo um ou outro microconto que viesse à mente. Acho que, se você se interessa nisso aqui, vai ser outra janela para dentro da minha cabeça. E quem sabe até te entreter por uns minutos!
Por exemplo, o conto a seguir não traz uma grande mensagem ou tem alguma ideia por trás. Ele surgiu sabe como? Só porque pensei nesse título e soou bem. É só isso. Sem grandes significados ou analogias, portanto não perca tempo tentando encontrar subtexto.
Fique com ele!
[Todos os sinais apontavam pra trás]
Por Guilherme L. A. Pimenta
Roni era uma pessoa muito supersticiosa e tinha razão de ser. Vinha de uma família que, há gerações, conseguia enxergar com naturalidade as influências energéticas do universo. Claro, nunca com o intuito de controlar. O universo não se controla. Eram versados, no entanto, na arte de enxergar oportunidades que ninguém mais percebia e tirar proveito delas.
Como se pareciam essas oportunidades? Depende. Algumas vezes eram confluências de correntes que criavam aberrações temporais. Outras, eram curvas repentinas no fluxo do cosmo que jogavam para fora coisas interessantes que poderiam beneficiar suas vidas. Alguns exemplos:
dinheiro encontrado no chão, mesmo na era do pix;
filas de supermercado que, inexplicavelmente, começavam a andar mais rápido que as outras;
produtos que estavam com preço X, mas que, ao passar no caixa, mostravam a metade do preço;
pessoas que não paravam de falar delas mesmas que engasgavam do nada e tinham que sair para beber água;
vaga na porta do laboratório de imagem bem no centro da cidade, com o carro anterior saindo assim que o da família se aproximasse.
Por saberem ler os sinais e seguir suas direções, a família de Roni vivia confortável. Não eram, sei lá, bilionários ou algo assim. Um bilhete premiado criava fortes redemoinhos energéticos apenas na hora em que eram criados, portanto não dava para saber os números certos antes de acertá-los. E muitas distorções da realidade que poderiam levar ao acúmulo de dinheiro batiam na triste realidade de serem contra a lei. Tinham orgulho em dizer que não utilizavam seus privilégios para o mal.
De qualquer modo, Roni nunca sentiu a necessidade de ser rico. Tinha uma vida tranquila e satisfatória, sem muitos conflitos. Sempre que um problema se aproximava, usava uma técnica de leitura energética para fugir dele. Sempre conseguia alguma vantagem.
Uma das vezes que aconteceu foi na faculdade. Havia esquecido de terminar o trabalho e perderia nota o suficiente na matéria para um dominó de dependências fazê-lo perder um semestre inteiro no caminho à formatura. Com aquele preço de mensalidade, os pais ficariam furiosos — embora pagassem apenas metade, por uma bolsa que foi estranhamente encaminhada a ele. Preocupado com isso, focou sua consciência para o terceiro olho, aquele que enxerga o universo como é, não como os humanos o veem.
Ao se aproximar da entrada da faculdade, notou uma oscilação curiosa: uma linha etérea que fazia a curva na calçada, passava por uma senhora esperando o sinal abrir e continuava em direção à rua. Não era drástica, portanto seria uma oportunidade não violenta. Não prejudicaria ninguém gravemente além de o beneficiar.
Roni se aproximou e ofereceu à senhora ajuda para atravessar. Quando o fluxo se alinhou em um funil perfeito, ele fingiu que olhava para os carros vindo e disse que ela podia ir. A senhora confiou e caminhou. Na hora exata em que a energia sugeria, gritou "cuidado!", puxando a idosa pelo braço. Era o movimento que o universo pedia para que nada de sério acontecesse. O carro que fazia a curva em direção ao sinal se assustou e freou repentino. Atrás, outro veículo não reagiu a tempo e bateu em sua traseira, criando o acidente que culminou em um baita trânsito na região.
O carro em questão era do professor que, abalado e cuidando de detalhes de seguro, teve que cancelar a aula. O semestre de Roni estava salvo.
Essa é apenas uma das vezes em que Roni deixou que o universo facilitasse sua vida. O universo, ele mesmo dizia, é um labirinto que sempre oferece uma saída, mas só consegue encontrar o caminho quem tem acesso ao mapa.
E a vida de Roni seguiu a mesma rotina por anos. Formou-se e logo assumiu uma função na empresa dos pais. Utilizavam seu conhecimento cósmico para encontrar sempre os melhores negócios e os clientes mais propensos. O caixa era sempre saudável, fluindo como a poeira do universo flui em todos nós. Sem pausa, sem limite.
Até que a vida de Roni mudou. Uma mudança sutil, mas repentina.
Enquanto buscava a melhor forma de contatar um grande parceiro em potencial, recorreu ao tarô. Das formas de leitura do universo, é uma das menos precisas, mas era o que tinha à mão no momento. A família era tão boa nisso que, com apenas uma carta puxada, Roni já teria uma boa ideia do caminho a seguir.
Inspirou. Expirou. Embaralhou. Inspirou. Expirou. Puxou a carta.
Congelou.
Era o seis de copas invertido. Sua primeira reação foi o estranhamento. Tentou lembrar-se de alguma vez na vida em que havia tirado aquela carta naquela posição. Não, não fazia sentido. O seis de copas invertido fala sobre arrependimentos, apego demais ao passado e resistência a mudanças. Coisas que nunca foram do feitio dele e da família.
Todas as cartas que puxavam falavam sobre disposição para o futuro. Sobre bons ventos e expectativas positivas. Caminhos claros e retos, fáceis de trilhar. Sempre na direção certa. Não precisavam se apegar ao passado porque o futuro era sempre melhor.
Roni sorriu nervoso. Balançou a cabeça para afastar os pensamentos ruins e embaralhou novamente.
Inspirou. Expirou. Embaralhou. Inspirou. Expirou. Puxou a carta.
Era o seis de copas invertido.
Em reação, deu um grito curto e jogou o baralho na mesa. Suzana, do RH, olhou estranho para ele, mas sem arrumar problema com o filho dos donos por pouca coisa. Eram estranhamente habilidosos em trocar de empregados toda hora sem sofrer consequências legais.
Roni, por sua vez, levantou de supetão e correu para a cozinha do escritório. Encheu uma caneca de café e bebeu tudo de uma vez para poder olhar o fundo. Toda a borra estava do lado esquerdo da asa, o que indica regressão e passado. Não era possível. Talvez o jeito que ele virou. Para funcionar, precisava beber com calma, absorvendo as energias. Encheu outra caneca. Bebeu. E a borra toda se acumulava no mesmo canto.
Quase soltou a caneca para que se espatifasse no chão, mas teve força o suficiente para levá-la até o balcão. Sua família tinha até um ditado: pessoas boas estão sempre ao lado direito da asa. Ele era uma pessoa boa. Sempre fora.
Sentindo um súbito calor e o suor brotando na pele, ignorou o trabalho e correu para a rua. Seguiu a larga avenida até um supermercado e comprou um pacote de feijão. Contrário ao que as pessoas normais pensam, os búzios não precisam ser jogados com contas específicas. Sua família sabia disso. Qualquer conta contava, pois caíam em um padrão que era governado sempre pelas linhas do universo.
Comprou também uma pequena bandeja circular de palha para servir de suporte. Sentou-se em uma das mesas no café em frente e preparou-se para sua leitura.
Inspirou. Expirou. Sacudiu. Inspirou. Expirou. Soltou os dezesseis grãos de feijão.
Todos caíram virados para o mesmo lado. Você pode se perguntar como é possível diferenciar um lado do feijão do outro, mas, como disse, a família de Roni tinha essa capacidade. O que fazia as conchas caírem na posição aberta ou fechada era o magnetismo da energia disposta no receptáculo. E ele podia ver tais linhas. Como viraram ou desviraram as contas — no caso, os feijões.
O fato é que estavam todos fechados em negativa a ele. Uma grande influência do passado, sem mostrar qualquer indício de seu futuro.
Já estava tão nervoso que as mãos suavam. As mãos! Lembrou-se da mãe alisando sua palma e falando sobre seu incrível futuro. Não tem como as linhas mudarem de uma hora para a outra, não é assim que a biologia funciona.
Roni respirou fundo e olhou para as próprias palmas.
As linhas haviam mudado.
Seus caminhos perfeitos ganharam novos traçados e criaram novas formas. Algumas fecharam-se em círculos, um indício evidente de arrependimento e dificuldade de seguir em frente. Outras estavam quebradas, típico de quem remói o passado.
Um pesadelo, só podia ser um pesadelo. Correu de volta para a rua e focou nas linhas que a energia do universo criava. Só agora, prestando atenção, percebeu a diferença. Elas todas passavam por ele, faziam imediatamente uma curva de cento e oitenta e voltavam para trás. Não havia qualquer energia cósmica à frente dele.
O que estava acontecendo? Como era possível uma coisa dessas? Tão preocupado com o futuro ausente, nem percebia que o semáforo perto de onde estava continuava vermelho fazia mais de dez minutos.
Até que, de fato, percebeu. Mais do que isso, até. Percebeu que o mundo inteiro estava parado. As pessoas. Os carros. Os pássaros. O universo é parte do tempo e o tempo resolvera dar um tempo bem naquela hora.
Menos Roni. Roni olhava em volta desesperado. Como viver com a ansiedade de se preocupar com o futuro? Como viver sem a certeza de que tudo se dá um jeito, que sempre há um caminho fácil, que tudo vai se resolver no final?
Quando ele girou o corpo, as linhas giraram junto. Era impossível ver o que o aguardava. Precaver-se. Antecipar-se. Não havia atalho cósmico nem mapa astral. Era apenas ele e a incerteza.
Não, ninguém pode viver assim. Como as pessoas viviam assim? O desespero começou a inundá-lo. Primeiro, as pernas, subindo pelas comportas até o estômago, afogando o peito e o deixando sem ar. É impossível viver assim. Roni travou os dentes e, em um último suspiro antes de perder as esperanças, tomou uma decisão.
O universo não se controla, uma ova. Agarrou as linhas e começou a envergá-las. Usou toda a sua força, toda a sua vontade para puxá-las. Precisava de indicações em frente para não ter que olhar para trás. Sua família não olhava para trás.
O problema é que a força necessária para controlar o universo pode causar fissuras gravíssimas no fluxo das coisas. Ignorando o fato, continuou puxando, até que finalmente uma das correntes de energia foi jogada para frente. Um movimento violento demais. Uma chicotada capaz de partir o universo em dois.
Com os olhos arregalados, Roni viu o bizarro fenômeno acontecer. Uma realidade tornada duas. Em uma delas, o mundo parecia exatamente o que ele conhecia. As mesmas pessoas apressadas pela rua. A mesma criança rindo de alguma coisa. O mesmo anunciante falando ao microfone sobre as promoções do dia. O mesmo céu azul. Porém, nele, todas as linhas do universo iam para trás. Era possível apenas lembrar o passado, nunca antever o futuro.
O outro lado era bem diferente. As ruas estavam vazias. O céu opressor, um tom que parecia até roxo. Todos os prédios eram ruínas de uma civilização que não existia mais. Cinzas grotescas choviam sem parar. Cobriam a calçada árida e infértil. Havia outra coisa, no entanto. Havia as linhas. Nessa segunda realidade, Roni podia ver com mais clareza ainda o que seu futuro reservava. O futuro brilhava igual as luzes de um aeroporto, que indicam exatamente como o avião deve proceder. Como se alinhar ao universo. Tudo era perfeito. Para ele. O futuro inteiro era desenhado para ele, sem sombra de dúvidas.
Afinal, sem luz, não há sombra.
Roni sabia bem qual realidade queria para si. Começou a caminhar e sentiu um alívio imediato quando as primeiras cinzas tocaram seu rosto.
[Finalmentes]
Espero que tenha gostado! Vou tentar sempre fazer esses pequenos contos quando tiver uma ideia até pra variar do meu padrão falando abobrinha sobre qualquer coisa.
Lembrando que na Amazon você lê histórias de verdade que escrevi! Tipo com tempo, paciência e revisão decente. Muito obrigado por acompanhar a newsletter e, se quiser, siga e me acompanhe nas redes!
Até a próxima!
Guilherme L. A. Pimenta
