Olá, pessoa que resolveu ler isto aqui sabe-se lá por quê!
Semana passada eu tive uma crise de identidade e resolvi que você não vai ter escolha a não ser passar por ela comigo. Não é o texto mais animado do mundo, mas também não é nada sério. A vida precisa de pequenos problemas, assim aprendemos a lidar com o os grandes quando vierem.
Em abril, completa um ano que comecei a escrever um livro novo, que já está chegando em 70 mil palavras. Seria um livro ali na casa entre 200 e 300 páginas. Uma pesquisa rápida para referência me retornou A Culpa é das Estrelas, que tem mais ou menos esse tamanho. Ou seja, embora não seja uma história encorpada, já é texto o suficiente para uma novela. Para quem não faz isso como atividade primária, é bastante coisa.
Mas, para um ano inteiro, não é o suficiente — se você quer realmente escrever um livro com alguma pretensão comercial. Dá 191 palavras por dia, o equivalente a dois ou três parágrafos, dependendo do tamanho.
Não que exista uma meta a ser cumprida, não me imponho isso. Destaco o número por um motivo apenas: ela mostra como eu tenho me iludido e desiludido em igual quantidade nos últimos 365 dias.
Ter um hobby é ter um lugar para fugir do mundo. Um bunker mental. Quem tem ou já teve um hobby sabe que a pior coisa que podemos fazer é querer monetizá-lo. Um dos verdadeiros males do século.
Porém, além da questão financeira — que me impede de dar mais tempo ao que deveria ser, vejo só, um passatempo —, existem sempre os objetivos pessoais. Eu ODEIO não terminar algo que começo. É criar o meu próprio fantasma sabendo que ele vai me assombrar pelo resto da vida.
Aí chegamos à razão pela qual médias podem ser enganosas. 191 palavras por dia uma ova! O ano foi repleto de semanas escrevendo sempre que dava, intercalados por meses sem a mínima motivação de retornar ao texto. É o ponto em que estou no momento. Por mim, estou desistindo. Mas sei que vou retornar quando a coceira bater.
Não deveria ser assim. É assim também com você? Por que projetos pessoais ganham um peso tão grande quando deveriam ser algo para tirar a cabeça dos problemas? Por que eles mesmos acabam se tornando um?
Sim, temos um culpado claro: já faz gerações que aprendemos que a coisa mais importante é sempre o dinheiro. Mais do que o dinheiro em si, a forma como ele prova nosso valor na sociedade. Se um hobby não faz dinheiro, por que fazê-lo? É idiota. Mas é uma verdade que experienciamos todo dia. Eu experiencio toda vez que lembro do meu arquivo de texto com 70 mil palavras me esperando.
E a quem estou enganando? Nem pelo dinheiro é. Ele terminado não dá dinheiro. É pela satisfação da completude. Essa eu não sei de onde vem. Você tem alguma teoria? Será que ânsia por terminar vem da mesma raiz, da conclusão da tarefa, do check no quadradinho? Ou é algo pessoal, a vontade de ver a linha de chegada de uma caminhada que eu comecei um ano atrás.
Como a proposta da newsletter é só sair escrevendo (ele disse a coisa!), nem sempre vou terminar com um texto interessante, ou uma grande revelação sobre a vida. Desta vez, nem conclusão eu tenho para fechar.
Bom, de qualquer forma, nem sempre é bom fechar as coisas. Às vezes, é melhor só deixar pra lá.
[Apenas ser]
Não me alivia o vento quando é por dentro que me revolto. Quando tento fazer viva uma força que empalidece perante a natureza, quando esta se compadece com a leveza de quem não se esforça para existir. O vento me mostra a diferença, a pobreza da existência que achei por bem merecer. Ser, apenas por ser, deveria ser o suficiente.
Não me alivia, também, o barulho da chuva. A prova viva de que o caos tamborila em uma mímica de ordem. O som constante de um aleatório distante a pingar. Uma cortina sonora acima de qualquer suspeita. Assim como demora, também se vai. A chuva me lembra bem de que a vida é uma variável previsível, porém nunca premeditada.
Não me conformo, enfim, da vida ser passiva de interpretação, quando deveria simplesmente existir. Enquanto eu, o que posso fazer, senão tentar parecer o caos que previ. Transformar cada gota em som e a vida envolta em barulho. Quem me dera que a vontade fosse solta do orgulho. Ou que, pelo menos, racionalizar a verdade transformasse a verdade em decisão.
O vento, a chuva, a vida. Coisas que apenas são. E eu não consigo apenas ser.
[Finalmentes]
É, hoje a newsletter foi curta, mas vou ficando por aqui! Muito obrigado por acompanhar e, se quiser, siga e me acompanhe nas redes, além de dar uma chance pros meus livros!
Até a próxima!
Guilherme L. A. Pimenta
